quinta-feira, 5 de março de 2015

Nos Olhos do Gato

Eduardo soube desde sempre que amava historia. O passado da humanidade era um mistério delicioso para ele, e sua ambição por descobrir os segredos escondidos milhares de anos lhe dava motivação para estudar. Logo nos primeiros anos da escola, o conhecimento bastante resumido não era o suficiente para saciar sua sede. Ele buscava mais e mais sempre, o que levou a sempre ser um dos alunos mais esforçados e inteligentes de todas as escolas que freqüentou.
            Sua vontade de sempre querer saber mais sobre o passado da humanidade lhe levou a ser um garoto solitário durante toda a sua juventude. Vestia-se sempre com roupas de cores neutras, seus cabelos louros nunca tinham conhecido um pente e às vezes Eduardo nem mesmo passava suas vestes. No entanto, uma coisa que Eduardo cuidava sempre era para estar cheiroso, e se sentia mal se algum dia saísse sem passar perfume ou sem tomar banho. Talvez esse seu habito de sempre estar limpo tenha vindo também dos estudos, pois ele havia ficado chocado ao estudar sobre a peste negra na Europa e as conseqüências da falta de higiene.
            O pai de Eduardo era um empresário muito rico e sempre deu ao filho boas condições para estudar, e sempre agradeceu por isso. Sua mãe gostava do fato do filho ser muito inteligente e estudioso, mas Eduardo tinha certo sentimento de desdém por sua mãe, mas a circunstancia para isso era um mistério até mesmo para ele. Eduardo simplesmente sabia que tinha algo de errado com sua progenitora, mas esses pensamentos só lhe vinham à cabeça quando não estava estudando.
            Eduardo nunca foi uma pessoa socialmente ativa, pois sempre estava sozinho por vontade própria, mas muito de seus colegas de aula gostavam dele. Às vezes Eduardo achava que esse afeto devia se dar pelo fato que ele sempre os ajudava com as matérias da escola ou porque eles queriam ajuda, e isso o fazia pensar que não tinha nenhum amigo de verdade. Mas no âmago de Eduardo isso não fazia a menor diferença, pois preferia a companhia de seus livros e de seu computador.
            Ao entrar na pré adolescência, Eduardo começou a se questionar a respeito de sua sexualidade, pois simplesmente não conseguia sentir nenhum tipo de atração por meninas e nem por meninos. Era um garoto bastante instruído para sua idade, e tinha ciência de que se fosse homossexual, esse fato daria sinais nessa fase de sua vida, mas não foi esse o caso. Ele simplesmente não sentia nada por nada, o que lhe era bastante intrigante. Por mais que Eduardo fosse solitário, ele costumava sempre observar as outras crianças com um olhar bastante critico, algo muito incomum para um garoto de doze anos, mas ele gostava. O fato de acompanhar a distancia, como um caçador estuda a sua presa, lhe fazia se questionar sobre como talvez as outras crianças fossem inconseqüentes e mimadas, pois o fato de sempre estudar em escolas particulares lhe deu como companhia alunos bastante mimados e com pais que faziam todas as suas vontades, o que na precoce opinião de Eduardo, lhes fazia dar pouco valor as coisas.
            E assim ele cresceu, na companhia dos estudos e observando as pessoas. De tudo isso, nada lhe fascinava mais do que a historia. Desde as primeiras aldeias pré-históricas ao contexto histórico dos dias de hoje, essa grande linha do tempo cheia de reviravoltas e personalidades lhe era vista de algo mágico. Talvez um dos motivos que ele gostasse de observar as pessoas fosse porque Eduardo sabia que a Historia era escrita, vivida e feita por pessoas. Avaliando de longe talvez ele pudesse ajudar as pessoas no futuro com o que ele estava vivendo hoje. Eduardo era um jovem muito diferente dos outros.
            Assim que concluiu o ensino médio, ele conseguiu uma vaga facilmente na universidade federal de seu estado. Seu pai queria lhe colocar em uma particular, mas Eduardo acreditava que o ensino de uma faculdade federal lhe seria melhor. Por mais que não fosse de muita surpresa de sua família, Eduardo escolheu cursar história. Ele havia perdido a conta de quantas vezes fora importunado e questionado a respeito dessa decisão por seus parentes, sempre com argumentos de que ele deveria fazer algum curso que lhe garantisse dinheiro e um futuro mais seguro. Como um rapaz bastante educado, ele sempre tentava dar um jeito de não levar esse assunto a diante em reuniões de família, mas houve mais de uma ocasião que ele quase xingou todos os que estavam questionando a sua escolha. Às vezes ser filho de um pai rico tinha pontos bastante negativos.
            Mas logo no final do primeiro semestre, Eduardo começou a ficar agoniado consigo mesmo. Quanto mais ele estudava, mais duvida ele tinha, mas não quanto à matéria dada, e sim com a realidade dela.
            Como era um jovem analítico para os fatos, ele pegava todos os fatos históricos e os colocava em uma linha do tempo. Ele não se dava conta disso na escola porque era bastante resumido o que era ensinado. Eduardo acreditava também que seus colegas não estavam se dando conta disso, mas todo o contexto histórico tinha buracos que não se encaixavam com os outros fatos ligados. Por um momento, Eduardo achava que tudo o que ele mais amava era uma grande mentira, onde nada do que ele sabia era verídico. Para um jovem como ele, um fato como esse era como um soco na boca do estomago.
            Eduardo começou a estudar cada vez menos desde que havia tido essa compreensão. Em seu âmago, ele estava aos poucos perdendo seu interesse não somente em estudar historia, mas em cuidar de si mesmo. Começara a consumir alimentos industrializados, coisa que ele jamais fazia por cuidar de seu corpo. Criara uma conta em uma rede social, algo que ele mesmo tinha certo repúdio. Aos poucos ele parou de observar e analisar as ações das pessoas a sua volta, não dando muita importância para isso. O ápice de sua depressão foi quando ele começou a vacilar com a higiene do próprio corpo, nem mesmo se dando ao trabalho de escovar os dentes e passar perfume. Ele simplesmente não estava mais se importando consigo mesmo e com o que mais gostava. Não queria mais ajudar as pessoas no futuro com o que ele vivera no momento. “Vai ser tudo uma mentira no fim das contas”, pensava consigo mesmo enquanto comia salgadinhos navegando numa rede social.
            Em um desses momentos de apatia, algo naquela mesma rede social que ele desprezava lhe trouxe de volta o que ele era.
            “A história é sempre escrita pelos vencedores”, George Orwell. Isso o que dizia uma publicação. Eduardo não havia pensado nisso. Tudo fazia sentido naquele momento. Era obvio que a história estava errada em vários pontos, porque ela fora manipulada! Como que ele não havia pensado nisso? Eduardo percebeu pela primeira vez que fora um tolo.
            Naquele momento, ele se determinou a saber tudo. Ele iria atrás da verdadeira versão da história e iria expor-la ao mundo. Esses fatos antigos não seriam manchados por mentiras. O conhecimento ancestral iria ser revelado para as pessoas, e tudo ficaria claro.
            Eduardo voltou a estudar com ainda mais fervor. Abandonou os alimentos industrializados e retomou a sua dieta saudável. Tomava três banhos por dia, para compensar o tempo que ficou desleixado com a sua higiene. A única coisa que não fez foi apagar suas contas nas redes sociais. Havia percebido que elas eram uma ferramenta poderosa para ele, e seria ridículo não utilizá-las.
            Eduardo já estava no ultimo semestre de seu curso quando seu pai veio a falecer. Foi um choque enorme para ele, pois fora o homem que havia lhe dado tudo na vida e ele simplesmente morrera. Um remorso enorme tomou conta de Eduardo quando sua mãe lhe disse que ele estava com câncer pulmonar fazia dois anos e omitira esse fato do filho. Quando ele perguntou o porque disso, sua mãe lhe respondeu que ele escolhera isso para não lhe preocupar com isso, pois era um jovem genial e não precisava ter esse tipo de coisa na cabeça.
            Um nó se formou na garganta de Eduardo ao saber disso. Um dos maiores desejos dele era mostrar o seu diploma universitário para seu amado pai, um dos homens que mais lhe inspirava, e ele se fora antes dele se formar. Não pode evitar conter as lagrimas ao ir a seu velório e ver o cadáver do pai no caixão. Na verdade, Eduardo só havia entendido que ele se fora quando avistou seu corpo. Ele infelizmente não pode dar o orgulho que desejava ao homem que devia tudo o que era.
            Ao concluir a faculdade, Eduardo foi convidado a entrar em uma fundação por seus professores, onde eles viajavam pelo mundo em sítios arqueológicos e também eram especializados em documentos e linguagens antigas. Eles haviam visto em Eduardo o potencial que precisavam para os novos membros. Eduardo nesses anos de faculdade havia amadurecido, e também havia entendido que a sua maior ambição, de saber a versão correta da história, fosse muito “coisa de adolescente”, mas ainda assim ele não havia desistido dessa idéia. Apenas havia entendido os limites que esse caminho tinha.
            Por isso, ele aceitou o convite. A fundação era financiada pelo governo e ele teria um salário bom. Ele havia herdado uma boa parte do dinheiro de seu pai, que estava na casa das dezenas de milhões, então não se importava muito com o salário, mas sim em exercer o trabalho que parecia ser o melhor para ele. A fundação era composta a maior parte por professores universitários, homens que Eduardo julgava como “da alta”, e ser convidado para fazer parte logo depois de se formar foi uma honra. “Eu darei o meu melhor”, e era só nisso que ele pensava.
            Logo no primeiro mês de trabalho, foi solicitada a fundação que fosse até o Egito, onde haviam descoberto uma pirâmide escondida sob uma grande camada de areia que até então não se tinha nenhum conhecimento de sua existência. Foram recrutados Eduardo, outro rapaz um pouco mais velho e dois de seus professores. Eduardo estava um pouco nervoso, pois nunca havia viajado de avião, quanto mais ir para outro país. Ele tinha um bom conhecimento em egiptologia, mas acreditava estar sendo levado junto para adquirir experiência.
            Na véspera da viagem, Eduardo não conseguiu dormir. Não conseguia decidir se estava ansioso ou com medo de andar de avião. Sabia que estatisticamente era o meio mais seguro de viajar, mas ainda assim estava com esse receio.
            Ao chegar ao aeroporto, ele ficou ainda mais nervoso do que já estava. Cada passo, desde fazer o “check in” até esperar por mais ou menos uma hora na sala de embarque, fazia seu coração pulsar cada vez mais rápido. Estava se esforçando para não demonstrar medo perto de seus companheiros de viagem, mas Eduardo achava que eles estavam percebendo seu medo.
            Sim, Eduardo descobriu que o ele sentia medo. Se sentia um tolo por não conseguir entender exatamente do que, mas a idéia de estar a quilômetros de altura sobre o oceano não lhe era nada agradável. Talvez tivesse medo do avião cair, ou talvez de demonstrar o seu medo para seus companheiros, mas o fato era que estava apavorado.
            Ao se sentar na poltrona do avião, Eduardo achou que suas pernas tinham ficado moles e geladas. Tudo o que pensava era em sair correndo daquele lugar, mas isso não passava de uma idéia em sua cabeça. Ele não sabia dizer se era porque estava com medo, mas ele percebera que o vôo estava demorando um pouco, o que lhe deixou ainda mais nervoso.
            A aeronave finalmente fechou a porta de embarque e as comissárias de bordo começaram a passar as instruções de segurança. Aquela coisa gigantesca se movimentando fazia com que Eduardo prendesse a respiração e fechasse os olhos. Aos poucos estava deixando de se importar em demonstrar seu medo aos outros, porque a essa altura eles já haviam percebido o fato. A decolagem fez o seu coração parar por um segundo. Eduardo teve varias vezes a impressão que o avião estava caindo, e quase que conseguia ver aquela coisa gigantesca se espatifando no chão. O frio em sua barriga não lhe era agradável, e ele teve a impressão de sentir uma pequena lagrima brotar no canto de seu olho.
            O vôo durou cerca de dez horas, e quando aterrissou, Eduardo engoliu um grito. Ele teve a impressão de que aquela coisa não ia parar, e que em seguida iriam bater em alguma coisa. Mas então ela começou a parar, e ele suspirou fundo. Não tinha nenhuma crença, mas agradeceu a Deus por ter dado tudo certo. Era pavoroso demais, mas tudo havia terminado.
            O Egito era bastante quente, mas não era nada insuportável. Eduardo e seus companheiros iriam viajar em direção ao sitio arqueológico na manhã seguinte, e deviam levar cerca de seis horas de viagem do Cairo até lá. Eduardo não gostava muito de viajar de carro por tanto tempo, mas ainda sim preferia muito mais isso a andar de avião. Por mais que ele soubesse que estava estatisticamente errado, se sentia mais seguro em terra firme do que no ar.
            O sitio ficava perto de uma aldeia. Segundo o que lhes informaram, foi um grupo de crianças que descobriram uma ponta da pirâmide enquanto brincavam. A escavação estava bem avançada e em breve seria possível explorar o interior da pirâmide. A aldeia era um pouco peculiar aos olhos de Eduardo, pois as pessoas de lá eram um tanto curiosas. A pele deles era um pouco mais clara do que a maioria dos egípcios, e eles possuíam uma linguagem bastante culta para uma aldeia de nômades. O que era mais estranho era que a maioria deles eram velhos, porém tinha um numero considerável de crianças em relação aos outros. Eduardo se perguntava se aqueles idosos eram os pais de algumas delas, e de fato não duvidava que fossem.
            Eduardo estava observando a aldeia quando ele percebeu um gato lhe observando. Era todo malhado com grandes olhos cor de âmbar. Era de fato um gato muito bonito, mas era um fato estranho aquele pequeno felino lhe observando com tanto interesse. Um ancião de cabelos brancos se aproximou do bichano e lhe acariciou. Ele portava uma bengala e caminhava mancando.
            “Ele está vendo alguma coisa em você”, disse o velho na língua de Eduardo. Ele observou o ancião que parecia ao mesmo tempo lúcido e debilitado. “Os gatos enxergam o mundo dos vivos e dos mortos. Nos olhos dos gatos existe uma sabedoria maior que qualquer pessoa poderia conseguir em toda uma vida.” Depois daquele discurso, Eduardo estava quase certo de que aquele velho estava ficando gagá. Era um monólogo muito bom, não tinha do que discordar, mas parecia coisa de filme.
            Mas tinha algo dentro dele que acreditava nisso.
            O gato seguiu observando ele até a hora que seus companheiros lhe chamaram para adentrar a pirâmide. Eduardo estava ansioso pelo o que encontraria lá, mas estava ciente dos riscos que podiam ter no meio do caminho. Mas logo ao chegar à entrada, os arqueólogos não permitiram Eduardo e o outro companheiro mais novo adentrar. Ambos protestaram, mas não havia nada que fizesse os arqueólogos mudassem de idéia.
            Eduardo voltou frustrado para a aldeia, onde permaneceu durante a tarde inteira até que os arqueólogos e seus companheiros voltaram com alguns artefatos. Foram entregues a Eduardo alguns pergaminhos antigos, em um estado bastante debilitado, o que requereu bastante cuidado ao manuseá-los. Todos os pergaminhos eram bastante peculiares, pois sempre havia a imagem de um felino e dos olhos de um felino neles. Era bastante difícil de ser traduzido, mas não era impossível.
            Os outros artefatos não interessavam tanto Eduardo quanto aqueles pergaminhos. Talvez ali estivesse uma parte da historia que ninguém ainda sabia da existência. Emocionou-se quando percebeu que talvez estivesse no caminho para a sua maior ambição.
            Durante o resto da viagem, Eduardo apenas cuidou do armazenamento dos artefatos, pois a maioria deles seria estudada na universidade. E como ele não havia os seus livros para consulta, não conseguiria traduzir nenhum trecho só com o que ele sabia no momento. Fora essa tarefa e pelo fato de não poder adentrar a pirâmide, a viajem foi bastante entediante. O que tirava ele da apatia era aquele mesmo gato que lhe observava sempre. Havia varias pessoas desconhecidas na aldeia, então porque aquele bichano só estava interessado em Eduardo? E se fosse verdade que ele estava vendo algo nele? Se fosse, seja lá o que esse gato estivesse enxergando deixava Eduardo com medo. Não era algo normal que um gato, uma criatura tão respeitada e cultuada no Egito, ficasse tão interessados em algo sem algum motivo.
            A viagem de volta não fora apavorante quanto à primeira, mas ainda assim fez com que Eduardo ficasse com medo. Mas dessa vez, ele não estava preocupado consigo mesmo, e sim com os documentos que estavam sendo transportados. Caso acontecesse alguma coisa, uma valiosa parte da historia iria se perder e não havia nada o que fazer se isso ocorresse.
            Mas, como da primeira vez, tudo deu certo e ele chegou à terra firme, são e salvo. A única coisa que ele pensava naquele momento era ir até a universidade e começar a traduzir aqueles pergaminhos. Ele estava animado de certa forma, e não se sentia cansado de passar dez horas sentado em uma poltrona de avião.
            Mas ainda assim, o seu trabalho só começou na manhã seguinte. De fato, eram textos bastante difíceis de serem traduzido sozinho, e teve a ajuda de muitos professores mais experientes nessa tarefa. Mas Eduardo era um homem inteligente, e logo nos primeiros dias ele percebeu o padrão dos códigos e aos poucos, os textos iam sendo transcritos para uma língua mais acessível.
            Mas a revelação foi um pouco mais peculiar do que Eduardo esperava. Na verdade, aqueles pergaminhos eram instruções para rituais de magia egípcia. Ele achou estranho algo desse tipo estar dentro de uma pirâmide de algum faraó, mas se esse era o fato, deveria ter algum motivo. O mais frustrante era que apenas um estava completo, e a maioria dos outros estava intraduzível pelo estado deplorável dos pergaminhos.
            O ritual dizia que quem o realizasse, teria “os olhos de gato”, e seria capaz de enxergar dentro do “duat”, o que Eduardo sabia que na mitologia egípcia era o mundo dos mortos e dos deuses. O que ele não entendia era que, naquele ritual era necessário sacrificar um gato, e isso não era comum para a cultura egípcia, pois os felinos eram sagrados. Dizia também que aquele que realizasse o “ritual dos olhos de gato”, teria a sabedoria de um. Eduardo se lembrou do que aquele velho da aldeia dissera, que os gatos olhavam para os dois mundos e que tinham a sabedoria que ninguém em uma vida inteira conseguiria.
            Ele também se lembrou da parte dentro dele que havia acreditado nisso. Era obvio que aquilo era apenas um ritual tradicional de alguma parte esquecida do antigo Egito, e que aquele velho estava gagá devido à idade avançada. Eduardo sabia disso, então porque alguma coisa dentro dele estava acreditando naquilo? Ele não estava tentado a fazer aquilo, estava?
            Então se lembrou novamente da frase de George Orwell: “A história é sempre escrita pelos vencedores”. Se a historia fosse escrita assim, talvez os “perdedores” sabiam a versão correta dela, mas eles estavam mortos. Olhou para aqueles pergaminhos novamente. Se aquela coisa ridícula funcionasse, será que assim ele conseguiria a versão correta da história? Ao pensar nisso, Eduardo riu sozinho, de certa forma com vergonha de si mesmo por ter pensado esse tipo de coisa.
            Mas aquela mesma parte dentro dele que havia acreditado no velho da aldeia dizia para fazer aquilo, pois assim ele seria o mais sábio de todos. O seu riso foi diminuindo aos poucos até que ele observava aquelas instruções. “É claro que isso não passa de uma bobagem de um povo primitivo, mas se funcionasse eu talvez conseguisse toda a verdade. Eu teria a sabedoria de um gato, e poderia ajudar as pessoas no futuro.” Essa parte dentro dele acabou ganhando de sua razão, e ele decidiu que faria aquela coisa, não acreditando que estaria se rebaixando a fazer alguma coisa dessas.
            Eduardo precisaria matar um gato de uma maneira rápida e sem dor, logo depois tirar-lhe os olhos e enrolar o corpo do bichano em ataduras, como se estivesse mumificando-o. Logo após isso ter sido feito, o corpo do gato teria que ser jogado em um rio, e os olhos do gato deveriam ser engolidos antes de adormecer. Ao acordar, se teria “os olhos de gato”.
            Na manhã seguinte, Eduardo achou um gato já velho andando pela rua. Achou que se fosse rápido, ninguém daria conta de sua ausência, apenas alguns dias depois. Apanhou o bichano, que lhe mordeu e arranhou para se defender, mas sem sucesso. Eduardo lhe levou até a garagem de sua casa, e pensou em talvez dar-lhe uma marretada no crânio, rapidamente e sem nenhuma dor. Mas então, em um movimento corajoso, ele apertou o pescoço do gato com força, até que sentiu o osso se quebrar. De certa forma, não sentiu remorso de ter feito aquilo, apenas pensava que precisava tirar os olhos do animal.
            E para isso, Eduardo usou uma faca que havia em cima da bancada da garagem. Cada um deles saiu inteiro na ponta da lamina e ele os guardou em um pequeno pote de vidro. Guardou o corpo do gato dentro de um saco para que sua mãe não achasse se entrasse na garagem, e os olhos ele escondeu de baixo de sua cama. Depois que se convenceu que ela não encontraria nenhum dos dois, ele saiu para comprar ataduras. Obteve vários rolos, e achou que com aquela quantidade conseguiria cobrir todo o corpo do bichano.
            E conseguiu. Ficou bastante vedado e Eduardo se sentiu satisfeito com seu trabalho. Agora ele precisava levar o bicho até um rio. Ele sabia que o mais próximo ficava a algumas horas de carro, e então se preparou para a viagem. Ele só esperava que o corpo do gato não começasse a feder, mesmo sabendo que ele o embalsamou bem e demoraria algumas horas a mais para iniciar o processo de decomposição. Pelo o seu tempo na estrada, Eduardo percebeu que já teria anoitecido quando voltasse para casa.
            Ao chegar à beira do rio, ele se certificou de que não havia ninguém por perto, e então arremessou o corpo do gato que ficou boiando enquanto a correnteza o levava para longe. Sentiu-se um pouco estranho ao fazer isso, não culpado, mas com um pouco de receio de certo modo.
            Estava um pouco cansado ao voltar, mas mesmo assim ficou determinado a concluir o ritual. Ao chegar em casa, subiu para seu quarto e apanhou o pote. Pensou que iria vomitar ao imaginar ter que engolir aquilo. Aquelas duas bolinhas brancas e sangrentas que lhe observavam sem nenhuma vida. Abriu e enfiou a mão dentro do pote. Os olhos estavam grudentos ao toque e sentiu a bile lhe vir à garganta. “Vamos logo, seu merda. Você chegou até aqui, não vai amarelar não é?” Não, ele não iria. Fechou os olhos e engoliu aqueles dois olhos em seco. Achou que se tivesse demorado mais um segundo iria vomitar. Tossiu muito quando terminou, seu corpo todo tremia involuntariamente. Lembrou-se de quando precisava tomar algum remédio amargo quando era criança, e riu consigo mesmo desse fato.
            O sono veio logo em seguida, e achou que com isso, ele teria completado o ritual. Quando acordasse, o máximo que ele teria visto era que fez uma grande besteira e que matou um pobre gato indefeso por culpa de uma parte mimada de sua mente.
            Mas a realidade fora diferentemente assustadora quando acordou.
            Ao contrario do que achou, ele acordou no meio da madrugada e não na manhã seguinte. Ele sabia que estava em seu quarto, mas ele estava olhando para um homem sendo açoitado. Ele era obrigado a esculpir uma enorme peça de mármore enquanto um grande homem-cachorro lhe açoitava as costas nuas. Eduardo gritou para aquela coisa parar, pois aquele homem era seu pai. O pavor tomou conta dele e um nó se formou em sua garganta. Quanto mais seu amado pai esculpia aquela peça, mais Eduardo fora dominado pelo horror. Ele estava esculpindo todas as atrocidades que ele cometera para se tornar um homem rico, desde os assassinatos até o trabalho escravo que impunha em estrangeiros ilegais. Seu pai era um monstro, e estava pagando pelos seus pecados no inferno.
            Eduardo olhou ao longe, e viu crianças brincando. Elas eram bastante pobres, mas o que mais o horrorizava era que elas estavam brincando sobre cadáveres de soldados, que ele sabia que eram americanos. Aqueles homens haviam matado aquelas crianças, e deixou o seu espírito manchado pela morte e pela vingança.
            Mais ao longe, Eduardo avistou um homem sendo torturado por varias pessoas. Não sabia explicar ao certo, mas Eduardo teve a impressão de ver o mesmo homem em vários corpos diferentes, mas varias pessoas de roupas listradas lhes atacavam com martelos, facas, armas, mordidas e murros. Ele reconhecia quem eram aquelas pessoas, e sabia que uma parte delas estava no paraíso e a parte menor estava no inferno. Mas aquele homem de bigode curto com certeza estaria com seu espírito condenado por toda a eternidade.
            Eduardo não conseguia deixar de ver, mesmo com os olhos fechados ele conseguia enxergar tudo. Desde a epigênise da humanidade, até os dias atuais, tudo ao mesmo tempo. Ele estava obtendo toda a sabedoria que um gato tem, mas gatos não enlouqueciam porque não entendiam o que viam. Tudo o que o mundo é hoje, foi construído com sangue e com sofrimento, e Eduardo estava sentindo esse pesar das pessoas que se foram. Ele estava conhecendo a verdadeira historia.
            Algum tempo depois, a mãe de Eduardo estava aos prantos ao entregar o filho para o sanatório. Ela acompanhou seu menino se transformar em homem, fora injustiçada por ele e aceitou tudo, sendo desprezada pelo marido e filho. Agora, seu saudável Eduardo estava de alguma forma louco. Ele começava a gritar e falar sozinho, depois começava a chorar por um motivo que ela não entendia. Depois disso, ele começou a se tornar agressivo e não parecia mais aquele homem inteligente e estudioso que era, mas sim um drogado que nunca havia freqüentado a escola.
            Era doloroso demais para ela ver o filho em uma camisa de força, e com o olhar perdido como de um débil mental. Recusava-se a acreditar que seu filho estava naquele estado, mas infelizmente ele havia ficado de alguma maneira louco e insano. Toda a vez que ela fora o visitar ia embora com os olhos cheios de lagrimas. Tudo o que ele repetia era: “Vamos todos para o inferno”, “Somos podres e fomos esculpidos com mentiras”, “A humanidade é cruel e sem nenhuma piedade”.
            Nenhuma mãe merecia ver o filho daquele jeito, completamente insano e sem nenhuma consciência, pois ela sabia que seu Eduardo, seu amado filho estava morto de certa forma. Ela lembra-se de quando via aquele menininho estudioso e aplicado. Certa vez havia o advertido em um momento de devaneio que, se ele procurasse todas as respostas, ele iria acabar encontrando-as.

3 comentários:

  1. Não não, mas eu ando tendo alguns problemas pessoais e não tenho tido muito tempo para escrever, e eu me recuso a publicar um conto se não estiver bom. Em abril posso prometer mais dois contos se tudo der certo. ;)

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  2. Aaa bem
    Kkkk
    Gosto muito dos teus contos

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